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Brasileiro dorme cada vez pior, e sono deteriora com idade, aponta pesquisa

Pesquisa mostra que queixas são mais frequentes entre mulheres e entre os mais pobres.

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Publicado em: 12 de março de 2018

Uma noite bem dormida é um sonho cada vez mais distante de parcela considerável dos brasileiros que chegaram aos 60 anos, mostra pesquisa feita pelo Datafolha. O problema não é apenas que a satisfação com o próprio sono decresce com a idade, como mostram os gráficos desta página. A situação é ainda pior porque a parcela de idosos que atribui bom ou ótimo ao sono decresceu consideravelmente em dez anos: de 68%, em 2008, para 54% em 2017. "A vida cada vez mais complexa e o aumento de atividades e estímulos estão por trás dessa piora", diz a especialista em sono Dalva Poyares, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Ela diz que o fenômeno é detectado em todas as faixas etárias de forma persistente desde 1987. "Há cada vez mais oferta de serviços, mais contas a pagar, mais estímulos, contatos, mais vida 24h/dia." Crise socioeconômica, aumento do desemprego e medo de assalto também estão na raiz da piora, diz a pesquisadora do Instituto do Sono Helena Hachul, professora de psicobiologia da Unifesp.

 

Crise socioeconômica, aumento do desemprego e medo de assalto também estão na raiz da piora, diz a pesquisadora do Instituto do Sono, Helena Hachul, professora de psicobiologia da Unifesp. Há cerca de um ano, após sofrer um AVC, Sawaia trocou o apartamento em que morava sozinha por um residencial para idosos independentes, na zona oeste de SP. Lá, ganhou interação social, o que também ajuda, segundo Araujo. "É muito ruim ficar em casa vendo TV --o idoso acaba cochilando e prejudica o sono noturno." O médico chama a atenção para a necessidade de políticas públicas que garantam aos idosos autonomia e condições de terem atividades fora de suas próprias casas.

POBREZA E SONO
A pesquisa Datafolha mostrou uma correlação entre nível socioeconômico e qualidade de sono. O descanso é melhor para quem tem curso superior e para os mais ricos, seja no total da população, seja entre os idosos. "A qualidade do sono depende claramente da qualidade de vida. O ambiente de dormir precisa ser confortável, com pouco ruido e ter uma temperatura agradável", relata Araujo.

Outro aspecto é o tempo de deslocamento entre a casa e o trabalho. "Quem tem menor renda precisa acordar cedo, reduzindo a quantidade de horas de sono." Os de menor escolaridade também são a maioria entre os trabalhadores noturnos ou os que trabalham em turno.

"A melhoria na qualidade de transporte público e habitações populares melhoraria muito o sono da população de menor nível socioeconômico", diz Araujo. O médico da UFRN diz ainda que essa parcela da população é duplamente prejudicada, porque a pior qualidade de sono reduz a eficiência no trabalho e na escola.

Hachul acrescenta que dormir mal provoca no dia seguinte irritabilidade, déficit de memória, atenção e até diminuição de imunidade. "Não havendo restauração física adequada, a pessoa sente-se indisposta para suas atividades habituais."

 

MULHERES
"Todas as minhas amigas dizem o mesmo: os maridos dormem bem, mas elas não. Nós temos mais preocupações, e a cabeça fica trabalhando." A observação da aposentada Nilza Fontanez Soares, 60, é confirmada pelo Datafolha: as queixas femininas de sono ruim ou péssimo são 50% maiores que a dos homens no geral, e chegam ao dobro entre os com 60 anos ou mais.

Maior necessidade de sono é uma característica de fêmeas em várias espécies, afirma John Araujo, médico da UFRN. "Porém as humanas sofrem ainda com a dupla jornada. Assim, quem mais precisa dormir é quem passa mais tempo em atividade." Helena Hachul, responsável por sono feminino nos departamentos de ginecologia e psicobiologia da Unifesp, diz que as queixas têm piorado com as conquistas graduais.

"Elas buscam mais educação, trabalham e se tornam independentes financeiramente." Essa alteração parcial do estilo de vida traz uma sobrecarga e aumenta a vulnerabilidade a fatores estressantes. "A mulher vive em privação de sono, e, no pouco tempo que tem para dormir, fica preocupada com tudo que tem para fazer e acaba tendo insônia."

Segundo Hachul, a insônia afeta cerca de 30% das mulheres e até 60% delas na pós-menopausa. Um dos principais motivos são as ondas de calor, afirma o ginecologista César Fernandes, presidente da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia).

Além de perder estrogênio, a mulher mais velha perde progesterona, hormônio importante para as funções respiratórias, relata Hachul. Essa queda, associada ao aumento de peso, leva a casos mais frequentes de apneia (suspensão da respiração). O sono fica fragmentado e a mulher passa o dia sonolenta, cansada e com perda de memória. "Em nosso estudos, 50% das mulheres com queixa de insônia apresentam na realidade distúrbio respiratório de sono."

Hachul diz que, se isso não for investigado, leva a tratamento inadequados. "Muitos médicos prescrevem benzodiazepínicos, para insônia. Mas, se a paciente tem apneia, pode haver piora, pois esses medicamentos promovem o relaxamento muscular."

Os especialistas recomendam que, independentemente da idade, se a paciente tiver dificuldades para adormecer ou manter o sono, ou notar que sua noite não é restauradora e isso lhe traz repercussões no dia a dia, deve procurar avaliação médica.

Fernandes aponta que as noites mal dormidas têm efeito na saúde de forma geral, e há pacientes que acabam não se queixando por considerar que ele é inerente à fase da vida em que estão. Os médicos afirmam, porém, que insônia não é o único distúrbio de sono, e que homens costumam sofrer com apneia, cujos efeitos se manifestam ao longo do dia e não são diretamente identificados como sono ruim.

ADOLESCENTES
As aulas para adolescentes dos 13 aos 17 anos deveriam começar a partir das 8h30, defende a Associação Brasileira do Sono. A entidade ressalta que o sono é essencial para a aprendizagem, e que jovens dessa faixa precisam de 8 a 10 horas de sono diário e têm mais dificuldade de antecipar o horário do início do sono. Segundo a associação, a mudança de horário em países como EUA e Inglaterra melhoraram os resultados escolares e o estado emocional dos alunos.

O lançamento do manifesto faz parte das atividades da Semana do Sono. O dia mundial do sono, nesta sexta (16), tem como foco o Nobel de Medicina de 2017, que premiou pesquisa sobre o controle dos ritmos biológicos, entre eles o ciclo sono-vigília.


Fonte: Folha
Edição: F.C.

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