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Neurocientista francês desmonta mito do 'multitarefa' e explica mecanismos cerebrais da atenção

Desconfie daquele amigo que jura ser capaz de conversar com alguém ao mesmo tempo que não desgruda do celular. Ele certamente não está prestando atenção no que você está falando, defende Jean Philippe Lachaux.

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Publicado em: 14 de março de 2018

Autor de diversos livros sobre o tema e pesquisador do Laboratório de Pesquisas Cognitivas do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica), em Lyon, Jean-Philippe Lachaux explica porque não podemos fazer várias coisas ao mesmo tempo. Em tempos de internet e novas tecnologias, os estímulos que perturbam nossa atenção e nossa capacidade de concentrar são múltiplos. Isso porque, contrariamente ao que muitos acreditam, é impossível para o cérebro realizar duas tarefas intelectuais de uma vez.

Desconfie daquele amigo que jura ser capaz de conversar com alguém ao mesmo tempo que não desgruda do celular. Ele certamente não está prestando atenção no que você está falando, como explica Jean Philippe Lachaux. Ele também é o autor de diversos livros sobre o assunto.

A equipe do pesquisador francês estuda os mecanismos cerebrais que são ativados quando estamos atentos e mais especificamente os neurônios envolvidos no processo, incluindo os aspectos químicos e fisiológicos das sinapses.

Essa alternância, diz o neurocientista francês, atrapalha a capacidade de concentração e de compreensão da mensagem que está sendo lida e respondida. Além disso, também impede o indivíduo de entender perfeitamente o que está sendo dito na reunião. Essa situação, por mais que pareça banal, contraria a natureza cerebral e “fragmenta a vida cognitiva”, afirma Jean-Philippe Lachaux.

Para realizar várias tarefas de forma simultânea, que exigem atenção e concentração, o cérebro deveria ser capaz de utilizar a mesma rede neuronal nas ações, o que é fisiologicamente impossível. Esse é o caso de atividades gerenciadas pelo córtex pré-frontal, como a compreensão de um texto.

O resultado pode ser observado em diversas situações da vida cotidiana. Quando estamos concentrados em algo, por exemplo, e somos interrompidos com uma pergunta, a única maneira é parar o que está se fazendo (e recomeçar tudo em seguida) ou dar uma resposta monossilábica, automática. A automatização, que engloba ações que podem ser realizadas sem reflexão, mobiliza um grupo de neurônios diferentes dos que são solicitados pela atenção.

Todas as tarefas que exigem a criação de um universo mental, abstração e criatividade necessitam de concentração total, lembra o pesquisador francês. “Esse processo exige uma atividade mental prolongada. Toda vez que você se distrai, precisa recomeçar do zero para recriar essa mesma imagem mental”, observa o neurocientista.

Estresse, o inimigo número 1 da atenção
A dopamina é um dos principais neurotransmissores envolvidos no processo da atenção. Sua falta pode gerar um cenário caótico no cérebro, e nesse caso são necessários tratamentos específicos. O estresse também exerce uma influência nefasta, desequilibrando a descarga hormonal de dopamina.

Mas em grande parte dos casos onde há problemas de concentração, pode-se melhorar a capacidade de manter o foco com exercícios cognitivos. Apostando nessa tese, a equipe de Jean-Philipe Lachaux desenvolve atualmente um projeto que tem como alvo alunos de até 11 anos de 450 classes da região de Lyon. Batizado de ATOLE (Attentif à l'école, Atento na escola em tradução livre), ele visa desenvolver a capacidade da atenção dos estudantes com uma série de fichas pedagógicas desenvolvidas especificamente para trabalhar a atenção.

As crianças aprendem a fragmentar suas tarefas em ações simples, que podem ser concluídas em um curto espaço de tempo. Segundo o pesquisador, isso ajudará o cérebro a fazer uma triagem do que é importante ou não.

“É um programa que visa crianças mais jovens, antes de elas terem acesso às redes sociais ou um telefone celular. O objetivo é ensiná-los a controlar a atenção, para prepará-los antes que eles sejam completamente capturados por esses dispositivos”. Para quem já está “contaminado” pelas novas tecnologias, buscar o foco pode dar mais trabalho, mas não é impossível. “É um processo que se aprende”, conclui o cientista francês.


Fonte: G1
Edição: F.C.

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