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O incrível poder da gentileza

Conviver é um jogo de equilíbrios complexos: precisamos do nosso espaço e de respeitar o espaço do outro.

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Publicado em: 28 de janeiro de 2019
Há uma analogia que mostra que a gentileza é semelhante a partilha.

Um pessoa berra ao celular; a impaciência domina outra ao volante; dois usuários do metrô tentam embarcar e desembarcar ao mesmo tempo; duas pessoas chocam-se na rua e se entreolham com hostilidade… E é preciso recordar o ponto alto desse cenário: as divergências políticas do ano de 2018, onde o país — dividido entre virtuosos e degenerados — virou um campo de guerra. Paira no ar a tensão de uma crise instalada. As razões são muitas, mas uma salta à vista: a falta de gentileza. O fenômeno é explicado pelos especialistas como um efeito colateral do individualismo e do estilo de vida acelerado. Não há tempo, nem espaço — aliás, sequer enxerga-se o outro.

Mas a pressa não é o único entrave. Há uma espécie de preconceito contra a gentileza. As boas maneiras são encaradas como algo fora de moda, falso, um verniz para esconder o que se sente. O que é um grande equívoco. Primeiro porque alguns gestos de cortesia não valem pelo seu valor de verdade, são do domínio do ritual. Quando dou “bom dia” a alguém, raramente estou desejando que a pessoa tenha um dia bom, na verdade, o que digo é “estou aqui e vi que você também está”. O termo “grato” vem do latim “gratia” que significa “receber uma graça”, “um favor divino”.

Ao dizer “obrigada” a alguém que segurou a porta do elevador, não acho que ela me concedeu uma dádiva celestial. São convenções que acolhem, demonstram respeito e facilitam o contato com o outro. Não é sem razão que o Japão, que ainda conserva rituais milenares, é considerado o país mais gentil do mundo. O respeito pelo outro — comunicado através de gestos de gentileza — garante a harmonia e a ausência de conflito – tão valorizados na cultura japonesa. Quem não se encantou com o comportamento do Japão na Copa do Mundo? Após a sofrida derrota frente aos belgas, a seleção nipônica deixou o balneário impecavelmente limpo e uma nota de “Obrigado” — escrita em russo — para os seus anfitriões.

Seguido do preconceito, vem a dificuldade da prática. Conviver é um jogo de equilíbrios complexos: precisamos do nosso espaço e de respeitar o espaço do outro; devemos ser discretos, mas atenciosos; interessados, mas não invasivos… A todo momento corremos o risco de aborrecer e ser aborrecido, irritar e ser irritado… Mafalda, célebre personagem do cartunista Quino diz que “É muito fácil amar a humanidade, difícil mesmo é amar as pessoas”. Amar quem está longe é fácil, amar o próximo — quem está na sua casa, na sua rua — é muito mais difícil.

A gentileza faz bem

Porém, não há outra forma. A ligação com o outro faz parte da nossa natureza. Somos gregários, está no nosso DNA. Precisamos do outro e só estamos bem quando estamos bem com o outro. A experiência do acolhimento, da partilha, do afeto, da sensação de plenitude só se dá com o outro. E quando estamos mal, também é com o outro. Cultivar atos de incivilidade abre a porta para a aspereza, para a agressão e para relações que machucam.

Seja qual for o cenário, os ganhos e os prejuízos são para todos. Quando anos atrás, o povo brasileiro e o próprio presidente da república pediram ao técnico para incluir Romário na seleção, ele respondeu com um sonoro “não”. Concordava que era um grande jogador, mas era um indivíduo conflituoso e desagregador, portanto, não era bom para a equipe, para o todo. Alguns questionam o sucesso de Gisele Bündchen. Por que faz tanto sucesso se há outras modelos tão ou mais bonitas do que ela? A resposta do seu agente? “Ela é gentil, sabe fazer bons ambientes; todos adoram trabalhar com ela”. Há uma analogia que mostra que a gentileza é semelhante a partilha. Se você tem uma vela acesa e deixa que o outro acenda a vela dele na sua, você não perde luz, o outro ganha luz e tudo fica muito mais iluminado.

Gentil X hostil

É possível ser gentil diante da raiva e da frustração do outro? É e recomenda-se. A gentileza pode minimizar o conflito e criar um cenário favorável para acordos e consensos. E também pode evitá-lo. Recentemente fui a uma festa na casa de uma amiga e ela comentou que estava muito feliz na sua nova moradia. O único problema era o vizinho alemão. Em quatro meses, ele havia reclamado três vezes do barulho e, em uma das vezes, tinha chamado a polícia. Comentou que era uma pessoa muito rude e tinha deixado claro que não toleraria barulho após às 23 horas. Fiquei preocupada. Relembrei a ela que o aniversário seria no dia seguinte, portanto, cortaríamos o bolo à meia-noite. Sugeri que ela deveria comunicar ao alemão. Ela argumentou que estava “na sua casa”; eu concordei, mas acrescentei que ela vivia num condomínio. Ela abriu muito os olhos, calçou os sapatos e decidiu: “vou falar com o alemão”. E assim fez. Bem… veio o jantar, veio o eufórico “parabéns”, veio o barulho… mas o alemão não veio.  

Exercite-se!

A segunda dificuldade é autoconstruída. Para escapar da responsabilidade de incluir o outro — e justificar um comportamento impróprio — muitos se apegam ao “não sou falso”, “tenho personalidade forte”, “sou frontal”. Munidos dessas muletas, a menor contrariedade, partem para a vida num desespero canalha, atirando para todos os lados. Qualquer um que cruze o seu caminho é visto como responsável pelo seu mau humor, seu dia ruim e, portanto, um alvo a abater. E há muitos assim. Estão por toda parte. Como lidar? Neutralize-os com gentileza. E se você estiver na categoria do “definitivamente não sou afável e não me sinto confortável nesse papel” e os atos de gentileza faz com que você pareça exteriormente o que você não é interiormente. Há solução. O homem está em construção e essa construção é feita através do exercício, da prática. Aristóteles afirma que o bom arquiteto é o que faz boas casas. De tanto exercitar, um dia a gentileza fará parte da sua personalidade. E será tão natural em você que ninguém dirá que é uma virtude recém conquistada. Pratique!

Fonte: Vida Simples 
Texto: Margot Cardoso
Edição: C.S.

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